andrè dias

André Dias
A PEQUENA ATENÇÃO

Apesar de tudo, há esperança. Um filme pode progressivamente ir desmontando os seus próprios pressupostos. (Não se saia da sala logo a correr, há que dar uma hipótese.) Un jour à Marseille de Mauro Santini começa com um dispositivo explícito, pouco agradável, depeeping tom; alguém espreita oculto pelas frestas da janela para a rua. Mas, à medida que as sequências do filme aparecem, tal vai-se atenuando. O gesto demasiado declarado desvanece-se, até se tornar um modo como outro qualquer. Ou quase, como veremos, por dar assim lugar à extrema atenção. Parece-me que esta não pode ser desprezada apenas porque constitui uma observação inobservada (quer dizer, por o dispositivo do filme ser desconhecido para quem está a ser filmado). Há momentos em que certos pressupostos éticos ligados à actividade cinematográfica, e ao documentário em particular, podem preceder a visão em concreto dos filmes, obstruíndo a fruição que lhes é devida.
À distância, isolada, com bastante grão, e com um som extremamente rarefeito que contraria magicamente a evidência do directo, a última e mais longa sequência do filme, focando a varanda de alumínio de uma habitação branca quase ao nível do mar sobre as rochas da costa de Marselha, é um exercício prodigioso sobre a atenção, quase uma sua tese. É importante distinguir aqui a atenção da sua afim, a contemplação. Há aqui uma mobilidade da câmara que oscila e segue, por vezes hesitanto, as estranhas e pacificadas personagens familiares, que descem sobre a rocha ou se chegam lentamente à frente da varanda. A atenção incide sobre uma multiplicidade de eventos, mesmo em tão estreito espaço, desdobrando-se, em particular, sobre uma menina que observa e vem a alcançar, depois de se calçar apropriadamente, algo que se encontra na água (que não chegamos a perceber o que é). Um homem mais velho chega-se, observa e volta-se para o outro lado, fumando pausada e melancolicamente. Tudo isto num cenário maioritariamente branco, frequentemente (propositadamente?) sobreexposto no sentido fotográfico, como que avisando para as dificuldades da atenção serem mais o excesso de signos do que a sua rarefacção.

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Pubblicato su ‘ainda não começámos a pensar’, 2007

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